19 de Abril, 2024
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Transtorno Afectivo Bipolar: Dos pacientes observados em Luanda, 2% sofrem de distúrbios mentais crónico
Patologia

A cada 10 pacientes observados semanalmente nos serviços de psiquiatria, nas várias unidades sanitárias de Luanda, um a dois por cento são diagnosticados com transtorno afectivo bipolar (TAB), segundo o médico psiquiatra Jaime Sampaio.

Em entrevista ao Jornal de Angola, a propósito do Dia Mundial do Transtorno Afectivo Bipolar, que se assinalou este sábado, Jaime Sampaio disse que, se for feito um estudo profundo a nível das 17 províncias, o número de pessoas com a patologia no país pode ser assustador.

O também especialista em saúde mental explicou que o número de pacientes com transtorno afectivo bipolar no país está a crescer muito, apesar das dificuldades de fechar o diagnóstico, tendo em conta o défice de treinamento de muitos profissionais da área de saúde mental.

O médico psiquiatra apontou a situação de guerra que o país viveu, o traumatismo craniano causado frequentemente por  acidentes de viação e o uso excessivo de álcool e outras substânciais psicoactivas(drogas) como as causas do aumento do número de pacientes com transtorno afectivo bipolar no país.

Dificuldades de fazer o diagnóstico

Segundo Jaime Sampaio, em Angola, ainda há dificuldades para fazer o diagnóstico destes transtornos e outras perturbações mentais. “Várias pessoas falam desta doença de uma forma insultuosa e, outros ainda, associam-na a questões de feitiçaria, por isso, as vítimas têm medo de procurar ajuda por causa do estigma e descriminação”, lamentou. 

Mas o especialista em saúde mental afirma que o transtorno afectivo bipolar é uma das doenças mentais que mais levam pacientes aos internamentos psiquiátricos e é considerada uma das principais causas de incapacidade profissional e de isolamento social.

De acordo com o psiquiatra, este transtorno está a ser muito comum no seio da população mundial, porque dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que, actualmente, cerca de 140 milhões de pessoas no mundo padecem desse transtorno.

O médico  afirma que a patologia afecta tanto homens como mulheres, principalmente entre os 15 e 25 anos.

Definição da doença

O Transtorno Afectivo Bipolar (TAB), segundo o médico psiquiatra, é uma doença mental grave e crónica, com causas biológicas, neuroquímicas e psicossociais, em que existe uma alteração do humor e a pessoa apresenta alternância de períodos de depressão com períodos de euforia (mania ou hipomania).

“É um transtorno cujo estado de humor varia de período de comportamento, uns baixos e outros bastante altos, precisando mesmo de internamento regular”, frisou o médico.

Jaime Sampaio aclarou que, no período de mania ou hipomania, a pessoa apresenta uma crise de euforia, grandiosidade, autoestima elevada, tem bastante energia para enfrentar o dia, apesar de não ter dormido bem na noite anterior.

Ainda na fase da mania, acrescentou, a pessoa também fala mais do que o normal, em tom alto, envolve-se em actividades de risco, faz compras de forma excessiva, opta por práticas sexuais indiscriminadas, descontrole ali-mentar ou alcoólico e tem temperamento explosivo.

Já no outro período, prosseguiu o psiquiatra, no polo de depressão, a pessoa apresenta tristeza profunda, angústia, desânimo, falta de energia, desinteresse por actividades e situações do dia-a-dia, cansaço excessivo, impaciência, falta de sono e de apetite, choros frequentes, falta de prazer sexual, isolamento social e pensamentos pessimistas, por vezes suicidas.

Causas da doença

Jaime Sampaio esclareceu que as causas do transtorno afectivo bipolar não são devidamente conhecidas, mas alguns estudos indicam que a patologia pode ter origem genética, biológica, neuroquímica, psicossocial, ambiental, endócrina e, inclusive, em determinadas situações médicas a que o indivíduo foi submetido.

Tipos de transtornos

O especialista explicou que existem quatro tipos de transtorno afectivo bipolar, nomeadamente, do tipo um, dois, misto ou ciclotímico (ciclos rápidos) e o transtorno induzido por substância ou medicamentos.

No transtorno do tipo um, clarificou o médico,  predomina a fase maníaca (euforia ) com depressão mais leve (distimia). Neste caso, os episódios maníacos duram entre sete a 14 dias, seguidos de pelo menos um episódio depressivo.

Já no transtorno do tipo dois, disse, prevalece a fase depressiva com mania mais leve (hipomania). Nesta situação, os episódios depressivos podem durar 14 dias, seguidos de, pelo menos, uma Hipomania (período de bem-estar, eufórico).

Na opinião do médico, em regra, o transtorno do tipo dois pode ser confundido com transtornos depressivos reincidentes (depressões que, depois de um estado intermediário normal, sempre reaparecem).

“Já no transtorno do tipo misto, o paciente apresenta simultaneamente episódios que possuem várias características, tanto de mania, quanto de depressão. Os pacientes afectados podem, por exemplo, ter pensamentos ou falas muito aceleradas, como é típico de um episódio maníaco e, ao mesmo tempo, podem ficar agressivos, ter pensamentos suicidas e sofrer de humor deprimido”, acentuou.

Jaime Sampaio disse que, no transtorno ciclotímico (ciclos rápidos), os pacientes apresentam episódios de variações de humor, que duram menos de uma semana, com oscilações de humor no intervalo de poucos dias.

Segundo o psiquiatra, pacientes com episódio de ciclagem rápida precisam de uma terapia especial, porque a frequente oscilação de episódios, muitas vezes, não é suficientemente tratada com medicamentos clássicos.

Por isso, recorre-se, com regularidade, aos estabilizadores de humor, porque os riscos de suicídio, nestes casos, são altíssimos. 

Diagnóstico

O diagnóstico da doença, segundo o médico, obedece às regras estabelecidas pelo Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, edição 5(DSM-5, sigla em inglês).

Segundo Jaime Sampaio, este Manual diz que se deve identificar os sintomas de mania ou hipomania e depressão e fazer uma avaliação a longo prazo destes sinais, principalmente do quadro depressivo.

“Não existem sintomas específicos que distinguem a depressão unipolar da depressão causada pelo transtorno afectivo bipolar. Por isso, há sempre uma demora na conclusão do diagnóstico deste transtorno em específico, pelo facto de, muitas vezes, a patologia ser confundida com depressão, quando, na verdade, é um transtorno bipolar”, sublinhou.

Tratamento

O especialista em saúde mental disse que, quando a pessoa apresenta algum tipo de crise, é importante que procure um atendimento especializado, para se restabelecer o mais rápido possível.

“Até mesmo nos períodos de manutenção, isto é, quando aparentemente tudo está sob controle, é importante que o paciente não abandone a terapêutica, para reduzir a chance de ocorrência de novas crises”, aconselhou.

Questionado sobre a medicação, o psiquiatra disse que o tratamento é realizado com medicamentos estabilizadores de humor, que devem ser devidamente doseados pelo médico.

E se o paciente comparecer com regularidade às consultas com o psiquiatra e psicólogo, e seguir à risca todas as recomendações, disse, ele pode viver muitos momentos sem entrar em crise grave e levar uma vida normal. 

Dia Mundial do Transtorno Afectivo Bipor

O 30 de Março foi instituído como Dia Mundial do Transtorno Afectivo Bipolar (TAB) pela Sociedade Internacional do Transtorno Bipolar (ISBD, sigla em inglês), com o objectivo de aumentar a conscientização e a aceitação da doença, eliminar o estigma social, bem como promover a excelência no diagnóstico e tratamento.

A data também foi institucionalizada para levar a informação sobre como lidar com esse distúrbio e adoptar medidas educativas que visem eliminar o estigma social associado ao transtorno.

Fonte: JA

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